OS TEMAS ABORDADOS POR HILDETH FAVILA

 

Franklania Freitas dos Reis[1] – UFBA

 

 

Entendendo a necessidade de dar visibilidade à escrita de autoria feminina alijada do cânone literário brasileiro, Hildeth Zesler Favila, escritora baiana, nascida em Salvador, a 13 de dezembro de 1912, é mais uma das escritoras que fazem parte do projeto de resgate da obra de escritoras baianas que publicaram no século XX, coordenado pela profª Dra. Ivia Alves, do Instituto de Letras da UFBA.

Colaboradora de revistas literárias de circulação na Bahia como “Samba”, “Arco & Flexa” e “A Luva”, a escritora atuou na esfera literária baiana desde os seus 16 anos.

Em 1927 publicou o seu primeiro livro de poesias, intitulado Dor suave. Em 1930, ainda na Bahia, a autora publica Sarabanda iluminada. Em 1936, no Rio de Janeiro, publica Guiso de ouro; em 1939, em São Paulo, Ouro do Brasil e em 1945, no Rio de Janeiro, Areia de praia. Além desses, tem-se conhecimento do livro em prosa ritmada Sol distante, escrito logo após o lançamento de seu primeiro livro, em 1927.

Assim como as produções de outras escritoras baianas de sua época, como Eufrosina Miranda e Áurea Miranda, Hildeth Favilla produziu sonetos além de poemas de forma livre e sofreu crítica ao seu modo de escrever.

No que diz respeito à Hildeth Favilla, após o lançamento de cada um de seus livros, era possível encontrar críticas às suas produções feitas pelo crítico literário Carlos Chiacchio, no Jornal A Tarde. A crítica negativa era em relação à temática triste de sua poesia. Como admitir que uma jovem carregasse em seu peito de menina todo aquele sofrimento amoroso? Se por um lado a crítica literária exigia para a mulher daquela época uma atitude pueril, por outro a classificava como fora de moda, se assim o fizesse.

Dentre os temas abordados pela escritora, o patriotismo e a religiosidade, os motivos da natureza são comuns entres as mulheres que escreveram na Bahia no início do século XX. Em sua publicação esparsa encontramos poemas nos quais a autora reflete sobre o comportamento e a fragilidade humana, dando sugestões de como agir diante dos problemas do cotidiano.

Além destes, em outro poema “Ritmo novo” Ver. Arco e Flexa, 1928, a autora fala sobre a fase da poesia brasileira do início do século XX, documentando o movimento Modernista, que ela chama de “as rebeliões literárias contra o tradicionalismo bolorento das velharias”.

 

Ritmo novo

 

 Abalroamento de idéias!

 Confusões…

Lutas titânicas da

 Estética, da

 Forma, da

 Emoção…

 O andar das rebeliões

Literárias, contra o tradicionalismo

 bolorento das velharias!

 Choques violentos…

 Cadeias partidas…

 E a seiva quente

 Do ineditismo

 A escalar a magnificência

 das ânsias estuantes

 do Pensamento Novo!

E no mastro das letras nacionais

 A bandeira flamejante,

 Da literatura, exclusivamente

Brasileira,

 Entre os clamões unisonos

Das aleluias douradas da Vitória.

 

Nesta comunicação, porém, procurarei me ater aos temas presentes em seu primeiro livro, Dor suave, de 1927. Neste livro, destaca-se o sentimento de tristeza que permeia seus poemas, sobretudo quando se referem à desilusão amorosa. O título do livro, bastante sugestivo, nos revela como é que, suavemente, a dor passa a fazer parte da vida do eu lírico de seus poemas.

Já no início do livro, no poema intitulado de “Quadras”, a autora fala da desilusão amorosa. O fato de amar e não ser correspondida é comparado com a escuridão da noite, elemento negativo em muitas de suas poesias.

 

Amar e não ser amada,

Que grande infelicidade:

É viver sempre magoada,

A pensar numa saudade.

 

Saudade negra,dorida,

Tão repleta de tristeza,

Que traz minh’alma oprimida,

Num poço de angustias presa!

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É passar a noite e o dia

Sempre cheia de aflição.

É trazer uma agonia

Constante no coração.

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É sonhar doce futuro

Cheio de luz e esplendor,

Para despertar no escuro

Da mais cruciante dor…

 

Já no poema “A lenda da rosa triste” cria uma há uma imagem a partir da comparação da vida de desilusões do eu lírico com a presença de uma rosa solitária sobre um muro arruinado.

 

Sobre um muro arruinado, entre fendas, tristonho,

Uma rosa sanguínea arfa talvez, num sonho:

 

Seu aspecto é tão triste e tão sentido

Que, vendo-a, sinto o peito ofegar, oprimido!

 

Oh! Sim! Porque esta flor tão só, tão esquecida,

Fez-me lembrar a minha triste vida…

 

Vida repleta de desilusões,

Cheia de grandes desolações

E de amarguras!

Longas noites escuras.

 

De vigílias tristissimas infinitas!

De sonhos vãos e de ilusões malditas!

 

Vida de solitária alma tristonha,

Que vive a soluçar, mas que ainda sonha!

 

A dolorida história

De minha própria vida merencória,

 

Eu lembrei vendo a rosa, essa pendida,

Sobre um muro arruinado, a sonhar esquecida!

 

De forma mais direta, é no poema “Quem me faz triste” que o motivo para a sua dor é revelado. O amor é algo que aprisiona. A liberdade é simbolizada pelo vôo da andorinha.

 

Eu era alegre como a andorinha

Que voa confiante, sem temor.

De cativa ficar na alheia vinha;

Eu era alegre como a andorinha…

E quem me fez assim tão triste? O amor.

 

Se todo este sofrimento presente em suas criações poéticas parece com o sofrimento presente na poesia do período Romântico, na segunda parte do livro, no poema “Noite de luar”, esta hipótese de desfaz. Aqui, a noite enluarada parece com o dia, pois é cheia de luz. O elemento “noite” deixa de ser negativo. O sentimento é de alegria. Ao invés do melancólico cair da tarde/fim do dia, a autora fala de nascer da noite.

 

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Bendita sejas, lua prateada!

Porque, quando te vemos, a alegria

Sempre brilha em noss’alma angustiada.

 

Tudo é silêncio; a noite enluarada

Faz-nos pensar que estamos vendo o dia!

Com todo o resplendor de uma alvorada.

 

Já em “Porque és triste”, poema dedicado à amiga Maria Povoa, a autora volta ao lirismo romântico, só que desta vez a dicção é masculina. Além da descrição física, neste poema a autora fala do sofrimento de uma jovem com ideais não concretizados:

 

És bela: tua face, ó querida, é sedosa,

É como a luz de um sol de raios benfazejos!

Teus olhos… ah! quem vê teus olhos tem desejos

De morrer por tua alma esquiva e suspirosa.

 

Falas, a tua voz macia e carinhosa

Tem o som cadencial de divinos arpejos.

Até parece, ao luar, a música dos beijos

Que tocam, soluçando, o colibri e a rosa!

 

És moça, és invejada, és bela, és tão querida…

No entanto minha amiga, eu sinto que esta vida

Ingrata, nunca deu a ti o ansiado ideal!

 

E é por isto que vejo em teu olhar tristonho

A miragem sublime e longínqua de um sonho,

Um sonho que se esvai a arder numa espiral…

 

Talvez tenha sido esta a forma que a autora encontrou para falar à mulher: metamorfoseando sua voz de mulher em fala masculina. Através desta estratégia, Hildeth Favilla, assim como outras escritoras, impuseram resistência à crítica literária e ao código social de sua época.

Se as produções de escritoras contemporâneas como Clarice Lispector, Adélia Prado ou Lygia Fagundes Telles têm sido tão bem acolhidas e incorporadas ao cânone literário brasileiro, que isto não sirva de motivo para o descaso com a produção daquelas que não tiveram possibilidade de expressar o seu trabalho e legitimarem-se como sujeito do discurso.

A divulgação do trabalho de escritoras como Hildeth Favilla serve de fundamento científico para uma revisão em nossa história literária.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

CARVALHO FILHO, Aloísio. Coletânea de poetas baianos. Rio de Janeiro: Editora Minerva Ltda., 1951. p. 227.

FAVILLA, Hildeth. Dor suave. Rio de Janeiro, 1927. Ilustr.

MARQUES, Nonato. A poesia era uma festa. Salvador: Grap.Co.Editora, 1994. p. 23.

MASCARENHAS, Dulce. Carlos Chiacchio: "Homens e obras". Salvador. Academia de Letras da Bahia, 1979. Vol.II.

SCHIMIDT, Rita Terezinha. Repensando a cultura, a literatura e a condição feminina. Márcia Navarro (Org.) Rompendo o silêncio; gênero e literatura na América. Porto Alegre, 1995.

 

Album de Poesias. Suplemento d`o Malho. Vol.3, s/d. Pg. 35

Revista Arco e Flexa. Bahia: Fundação Cultural do Estado da Bahia. 1928/1929. p.46

Jornal A Tarde. 19/02/1929. Carlos Chiacchio. Homens e Obras.

Título do artigo: “Sarabanda Iluminada”

Jornal A Tarde. 26/08/1936. Carlos Chiacchio. Homens e Obras.

Título do artigo: Esquemas de Poesia

Jornal A Tarde, 27 de março de 1946.

Carlos Chiacchio, “Homens e Obras” , pág. 03



[1] Ex-bolsista de Iniciação Cinentífica do PIBIC/CNPq e atualmente voluntária do projeto Resgate de textos de escritoras baianas do século XX: percurso intelectual, estudo da produção, coordenado pela Profª Drª Ivia Alves.